O quarto branco confunde sentidos e anula percepção da passagem de tempo, causando estresse e ansiedade nos participantes.
O quarto branco do BBB 26 chegou ao fim na madruga de domingo (18/01) e bateu recorde, quando superou a marca de 120 horas de confinamento e se tornou o mais longo da história do reality show.
O programa não apenas expõe conflitos entre participantes, mas escancara algo que atravessa a nossa cultura: a dificuldade coletiva de reconhecer violências quando elas são apresentadas como superação, desafio ou prova de resistência.
O retorno do chamado Quarto Branco reacende esse debate. Trata-se de um ambiente sem conforto, com luz branca constante, ausência de referências temporais, frio, alimentação restrita, ruídos perturbadores e isolamento. Do ponto de vista psicológico, esse tipo de contexto interfere diretamente na regulação emocional. O cérebro humano precisa de estímulos externos para se organizar. Quando eles são retirados, o sistema nervoso entra em estado de alerta contínuo.
Nessas condições, é comum observar aumento da ansiedade, irritabilidade, confusão mental, intensificação das emoções e sensação de perda de controle. Pequenos estímulos passam a ser vivenciados como grandes ameaças. O silêncio pesa. O tempo parece não passar. O corpo entra em exaustão.
É preciso reconhecer que há uma banalização perigosa da violência psicológica quando ela é apresentada de forma lucrativa, transmitida ao vivo e amplamente patrocinada. Nessas circunstâncias, o sofrimento é ressignificado como prova de resistência. A privação é romantizada. E, muitas vezes, a ausência real de possibilidades de escolha é travestida de mérito.
O mesmo programa que, corretamente, afirma não compactuar com violências físicas ou sexuais, acaba produzindo sofrimento emocional como entretenimento. A dor é narrada como desafio. O ambiente hostil é apresentado como teste de força. Quem suporta mais é celebrado como “guerreiro”.
Mas sofrimento não é virtude.
No Quarto Branco, não há inimigos externos. O “inimigo” passa a ser o próprio corpo: um sistema nervoso sobrecarregado, pensamentos desorganizados, fome, exaustão física e emocional. Não se trata de heroísmo, mas de submissão em troca de pertencimento e da chance de seguir no jogo.
A produção costuma destacar o acompanhamento médico dos participantes. Ainda assim, é fundamental lembrar que saúde, segundo a Organização Mundial da Saúde, não é apenas ausência de doença, mas um estado de completo bem-estar físico, mental e social. E ninguém submetido a essas condições está em bem-estar. Há privação de sono, prejuízo cognitivo, desorganização emocional e um corpo mantido em alerta constante.
Quando o sofrimento é normalizado e embalado como entretenimento, algo se comunica socialmente. Aprende-se que ultrapassar limites é desejável. Que suportar a dor em silêncio é sinal de força. Que reconhecer o próprio limite é fraqueza. E isso tem efeitos que vão muito além de um programa de televisão.
Como psicóloga, acredito que é meu papel contribuir para que essas discussões sejam feitas com responsabilidade. Não se trata de demonizar o entretenimento, nem de apontar culpados individuais, mas de questionar narrativas que banalizam a violência psicológica e a apresentam como espetáculo.
Precisamos, enquanto sociedade, rever quais valores estamos reforçando quando celebramos a exaustão, a privação e o sofrimento como mérito. Saúde mental também é reconhecer limites. Também é dizer que não. Também é compreender que o cuidado não é incompatível com desafio, e que nenhuma experiência de dor deve ser romantizada.
Falar sobre isso é um ato de cuidado coletivo.
Sou Joana Santiago – Psicóloga

