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Nem todo conflito em família é falta de limite — às vezes é excesso de estímulo.


Eu tenho recebido, com cada vez mais frequência, famílias que chegam com a mesma sensação:
“Algo não está bem dentro de casa, mas a gente não sabe exatamente o que é.”

Quando começa a olhar para a rotina, um ponto aparece com muita força: o uso constante de telas por todos os membros da família.

Hoje, crianças, adolescentes, adultos e até os avós estão inseridos no ambiente digital.
E isso, por si só, não é o problema.
O ponto de atenção está no excesso e na forma como ele interfere na regulação emocional e na qualidade das relações .

Do ponto de vista psicológico, o cérebro precisa de pausas para processar estímulos, organizar emoções e sustentar a atenção.
As telas, principalmente com conteúdos rápidos e intensos, oferecem estímulos contínuos, o que pode gerar uma espécie de sobrecarga mental .

Nas crianças, isso costuma aparecer como dificuldades, irritabilidade e dificuldade em lidar com frustrações.
Eles ainda não têm recursos internos para organizar o que sentem, então expressam no comportamento.

Nos adolescentes, o impacto ganha outras camadas. Além da sobrecarga, existe uma comparação constante, a busca pela validação e a exposição a padrões muitas vezes irreais, o que pode intensificar a ansiedade, a insegurança e o isolamento .

Nos adultos, o excesso de estímulos pode levar ao cansaço mental, à impaciência e à dificuldade de estar presente de forma sincera nas relações.

E as avós, que hoje também estão ligadas, muitas vezes enfrentam desafios importantes:
desde a dificuldade de compreender o funcionamento das tecnologias até à maior vulnerabilidade a golpes e informações enganosas, o que pode gerar insegurança e ansiedade.

O que eu observo, no fim, é uma família que está conectada o tempo todo, mas ao mesmo tempo, menos disponível emocionalmente .

A ausência de pausas, de conversas e de momentos compartilhados impacta diretamente o vínculo.
E isso pode gerar conflitos, afastamentos e uma sensação de desconexão, mesmo quando todos estão fisicamente próximos.

Por isso, quando eu falo sobre telas, não estou falando sobre decretação.
Estou falando sobre consciência, equilíbrio e, principalmente sobre reconstruir espaços de conexão real.

Criar momentos sem tela, incentivar o diálogo, propor atividades em conjunto e, principalmente estar disponível emocionalmente são movimentos simples, mas muito potentes.

A tecnologia faz parte da vida, e pode inclusive aproximar as pessoas. Mas é o uso que faz com que ela defina o impacto em nossas relações.

Se você percebeu mudanças no comportamento ou na dinâmica de sua família, vale olhar com mais atenção para isso.

E você não precisa fazer esse caminho sozinho.

Sou Joana Santiago – Psicóloga

Entre polêmicas, debates e viralizações, fica a pergunta que ecoa: o que esse bebê realmente preenche? Um colo, um vazio, uma memória, ou a possibilidade de viver o afeto sem o comprometimento real que uma criança de verdade nos pediria?

Nas últimas semanas, os bebês reborn – bonecos hiper-realistas feitas à mão para parecerem bebês de verdade – ganharam destaque nas redes sociais e na mídia. Embora essa prática exista há décadas, viralizou recentemente após influenciadoras compartilharem suas rotinas com esses bonecos, gerando não só curiosidade, mas também polêmicas, discussões jurídicas e até projetos de lei no Congresso.

Mas o que de fato está em jogo aqui? O que esse movimento escancara sobre nossas relações emocionais, nossas faltas e os vazios que, muitas vezes, tentamos preencher?

Brincar é coisa de criança… ou não?

Do ponto de vista do desenvolvimento emocional, o brincar tem um papel essencial desde a infância. Segundo os fundamentos que compreendemos na psicologia, autores como Piaget, Melanie Klein e Winnicott mostram que o ato de brincar é, na infância, uma ponte entre a fantasia e a realidade. É no brincar que a criança experimenta, elabora emoções, aprende, organiza seus afetos e dá sentido ao mundo.

Mas essa capacidade não desaparece na vida adulta. Na verdade, o brincar – entendido aqui como qualquer atividade simbólica, criativa e expressiva – continua sendo uma ferramenta psíquica que oferece alívio, prazer, segurança emocional e, muitas vezes, funciona como espaço de resgate da própria história.

Quando o brincar vira fuga?

O problema começa quando esse espaço simbólico, que deveria ser uma pausa saudável na vida adulta, passa a ocupar o lugar de fuga da realidade ou do enfrentamento de dores emocionais não elaboradas.

Winnicott nos ensina que objetos podem se tornar “objetos transicionais” – elementos que ajudam no processo de amadurecimento emocional, especialmente nos momentos de separação, ausência ou construção de autonomia. Mas quando esse objeto deixa de ser ponte e passa a ser destino, há um risco: o objeto não apenas simboliza, mas começa a substituir vínculos, afetos e experiências reais.

Por isso, é fundamental se perguntar:

  • Isso está me ajudando ou me aprisionando?
  • Estou encontrando alívio saudável ou fugindo daquilo que preciso elaborar?
  • Minha vida social, profissional ou afetiva está sendo prejudicada?

Quando a boneca deixa de ser hobby e começa a ser usada como única fonte de preenchimento emocional, isso pode sinalizar que existe algo não elaborado internamente.

O que esse bebê reborn representa?

Do ponto de vista da psicanálise, especialmente na visão de Melanie Klein, o brincar também é uma forma de elaborar fantasias inconscientes, angústias, medos e desejos. Através do brincar, reorganizamos nossa realidade psíquica e encontramos modos de lidar com nossas dores e faltas.

Na vida adulta, essa função simbólica continua presente. O bebê pode representar cuidado, afeto, proteção ou até servir como elaboração de experiências que, por alguma razão, não foram vividas ou foram interrompidas – como lutos, perdas, relações não concretizadas ou traumas emocionais.

Mas é importante compreender: objetos não curam. Eles são suportes simbólicos, importantes e até terapêuticos, desde que estejam integrados a um processo consciente, com clareza emocional e, muitas vezes, acompanhados por psicoterapia.

Entre a fantasia e a realidade: qual é o limite?

Aqui entra um ponto crucial que Piaget ajuda a compreender: a diferenciação entre fantasia e realidade faz parte de um desenvolvimento saudável. Na infância, essa fronteira é mais flexível, mas com o amadurecimento, espera-se que o sujeito consiga transitar entre esses dois mundos sem perder a noção do que é simbólico e do que é real.

Quando o brincar ocupa a vida de forma isolada e começa a gerar prejuízo – como afastamento social, dificuldades no trabalho, isolamento afetivo ou dependência emocional daquele objeto – acende-se um alerta.

O limite saudável é quando esse hobby é parte da vida, não quando se torna a vida inteira.

O que, de fato, estamos tentando cuidar?

No fundo, o convite aqui não é um julgamento sobre quem coleciona bebês reborn, mas sim um convite à reflexão profunda:
O que essa bebê simboliza pra você?
Ela representa criatividade, cuidado, conexão com a sua história?
Ou ela está sendo usada para preencher dores, vazios ou ausências emocionais que ainda não foram olhadas com a profundidade que merecem?

A resposta nunca está no objeto em si, mas na relação que você estabelece com ele – e, principalmente, na relação que você tem consigo mesma.

Porque, no fim das contas, o que está em jogo não é a boneca. É sua história. Sua dor. Sua busca. E, quem sabe, a oportunidade de transformar tudo isso em cuidado de si.

Sou Joana Santiago | Psicóloga