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O que Os Incríveis 2 nos ensina sobre a carga mental das mulheres.

Construir uma família saudável não é responsabilidade de uma única pessoa. Quando o cuidado com os filhos, a organização da casa e a gestão da rotina são compartilhados entre o casal, todos se beneficiam: a mulher deixa de carregar um peso excessivo, o parceiro participa de forma mais ativa da vida familiar e os filhos crescem em um ambiente onde a cooperação faz parte das relações.

Ainda assim, muitas mulheres continuam assumindo grande parte dessas responsabilidades. Mesmo quando contam com um companheiro presente, é comum que permaneçam como as principais responsáveis por organizar a rotina, lembrar compromissos, antecipar necessidades, mediar conflitos e garantir que tudo funcione. Essa sobrecarga nem sempre é percebida, justamente porque grande parte desse trabalho é invisível.

Em Os Incríveis 2, Helena Pêra, a Mulher-Elástico, vive um desafio que muitas famílias reconhecem: conciliar trabalho, filhos e responsabilidades familiares. Embora seja uma animação, a história retrata uma experiência com a qual muitas mulheres se identificam: a sensação de que precisam dar conta de tudo ao mesmo tempo.

Essa percepção não acontece por acaso. Diversos estudos mostram que, mesmo com os avanços na participação feminina no mercado de trabalho, as mulheres continuam assumindo a maior parte das responsabilidades relacionadas ao cuidado da casa, dos filhos e da organização da vida familiar. Além das tarefas visíveis, existe uma dimensão menos percebida, mas igualmente exigente: a carga mental.

A carga mental refere-se ao esforço constante de planejar, lembrar, antecipar necessidades, organizar compromissos e monitorar o funcionamento da família. É um trabalho invisível, que exige atenção contínua e raramente termina quando o dia acaba. Não se trata apenas de fazer as tarefas, mas de ser quem se lembra delas, quem coordena e quem garante que tudo aconteça.

Pesquisas sobre divisão do trabalho doméstico mostram que essa responsabilidade costuma recair de forma desproporcional sobre as mulheres. Isso pode contribuir para níveis mais elevados de estresse, fadiga, ansiedade e dificuldade para reservar tempo para o próprio cuidado. Quando essa sobrecarga se prolonga, ela também pode afetar a qualidade das relações familiares, aumentando conflitos e reduzindo a disponibilidade emocional para o diálogo.

Na perspectiva da Terapia Familiar Sistêmica, é importante compreender que o funcionamento de uma família é construído pelas interações entre seus integrantes. Quando uma única pessoa concentra grande parte das responsabilidades emocionais e práticas, cria-se um desequilíbrio que impacta todo o sistema familiar. Da mesma forma, quando o casal compartilha decisões, cuidados e responsabilidades, fortalece-se um ambiente mais seguro, cooperativo e saudável para todos.

É justamente nesse contexto que a terapia familiar pode oferecer um espaço de transformação. O objetivo não é identificar culpados, mas compreender como cada pessoa participa das dinâmicas da família e como pequenas mudanças na forma de se comunicar, dividir responsabilidades e lidar com os conflitos podem beneficiar todos.

Talvez a maior reflexão que Os Incríveis 2 desperte seja esta: nenhuma pessoa precisa ser uma super-heroína para que uma família funcione. Famílias se fortalecem quando o cuidado deixa de ser um peso individual e passa a ser uma responsabilidade compartilhada. Reconhecer limites, pedir ajuda e construir uma parceria verdadeira não enfraquece os vínculos; pelo contrário, cria relações mais equilibradas, respeitosas e saudáveis.

Sou Joana Santiago Psicóloga

Quando Marta disse que não teve uma ídola para se inspirar, ela revelou algo muito maior do que uma história sobre futebol. Ela falou sobre pertencimento.

Durante a Copa do Mundo Feminina de 2023, uma fala emocionada de Marta chamou a atenção de milhões de pessoas. Ao refletir sobre sua trajetória, ela afirmou que não teve uma ídola no futebol feminino durante sua infância.

A declaração parece simples, mas carrega uma reflexão profunda sobre identidade, pertencimento e desenvolvimento emocional. Mais do que falar sobre futebol, Marta falou sobre uma necessidade humana fundamental: a necessidade de nos reconhecermos em alguém.

A importância de se sentir representado

Quando uma criança encontra uma referência positiva, ela passa a enxergar novas possibilidades para si mesma. Não se trata apenas de admiração, existe uma mensagem silenciosa que diz: “Se alguém como eu conseguiu, talvez eu também possa.”

A Psicologia compreende que nossa identidade é construída por meio das relações que estabelecemos ao longo da vida. Observamos pessoas importantes, absorvemos valores, aprendemos comportamentos e criamos uma percepção sobre quem somos. As referências exercem um papel essencial nesse processo.

O pertencimento e a Teoria da Identidade Social

A Teoria da Identidade Social, desenvolvida pelos psicólogos Henri Tajfel e John Turner, explica que parte da nossa identidade é formada pelos grupos aos quais pertencemos, família, escola, amigos, equipes esportivas e comunidades contribuem para a construção da nossa visão de mundo e de nós mesmos. Quando nos sentimos parte de um grupo, experimentamos maior segurança emocional, conexão e autoestima.

É exatamente esse fenômeno que vemos nas torcidas esportivas, pessoas desconhecidas se unem, compartilham emoções e criam um forte senso de comunidade porque se identificam com um objetivo comum. Mas esse mesmo processo também acontece dentro das famílias.

A família como primeiro lugar de pertencimento

Antes de encontrar ídolos, colegas ou grupos sociais, a criança encontra sua família. É nesse ambiente que ela aprende se suas emoções são aceitas, se sua opinião importa e se existe espaço para ser quem realmente é.
Quando há acolhimento, escuta e validação emocional, a criança desenvolve um senso de pertencimento saudável, ela aprende que tem valor, que é importante, que possui um lugar seguro para retornar quando enfrenta dificuldades. Por outro lado, quando predominam críticas constantes, rejeição emocional ou falta de conexão, esse sentimento pode ser fragilizado, impactando a autoestima e os relacionamentos futuros.

As referências que construímos dentro de casa

Muitas vezes associamos inspiração a grandes personalidades, atletas ou artistas. No entanto, as referências mais importantes costumam surgir nas experiências cotidianas. Pais, mães, avós e cuidadores ensinam sobre amor, respeito, empatia e resolução de conflitos por meio de suas atitudes diárias. As crianças observam muito mais do que escutam, por isso, os exemplos vividos dentro de casa têm um impacto profundo na formação da identidade.

O legado que permanece

Hoje, Marta representa para milhares de meninas aquilo que ela mesma não teve quando era criança: uma referência.

Sua história nos lembra que o sentimento de pertencimento transforma vidas. E nos convida a refletir sobre o papel das relações familiares nesse processo.
Afinal, antes de acreditar que podemos ocupar qualquer espaço no mundo, precisamos sentir que temos um lugar onde somos amados, aceitos e valorizados.
É nesse ambiente que a identidade floresce e a confiança se fortalece.
Porque antes de acreditar que podemos conquistar o mundo, precisamos acreditar que temos um lugar ao qual pertencemos.

Você já parou para pensar nas referências que está construindo dentro da sua família?

Sou Joana Santiago – Psicóloga

No relacionamento abusivo não há respeito e compartilhamento da vida, há uma tentativa de controle através da manipulação emocional.

Mais uma vez o programa de televisão BBB 23 da Globo levanta a discussão de um assunto polêmico que afeta as pessoas, e que as partes envolvidas não percebem o que realmente está acontecendo.

Relacionamentos abusivos. Quando esse assunto surge em conversas, em geral, é através de especulações para desvendar a motivação do cônjuge que não consegue deixar o parceiro abusivo.

Afinal, não é uma situação agradável, então qual é a razão para as pessoas continuarem em relacionamentos abusivos?

A pessoa em um relacionamento abusivo pode não compreender as suas próprias razões para permanecer ao lado do cônjuge. Ela tem consciência de que não está sendo bem tratada, mas não consegue terminar a relação, mesmo quando outras pessoas tentam convencê-la a deixar o parceiro.

Assim, quem está de fora tende a achar a situação um absurdo e conclui que a pessoa gosta daquele tipo de relacionamento ou de parceiro. Esse pensamento infelizmente acaba corroborando para a estigmatização de vítimas de relações tóxicas, dificultando ainda mais a sua saída desses relacionamentos.

Um relacionamento abusivo pode acontecer com qualquer pessoa. Pessoas lindas, divertidas, de bem com a vida, instruídas, saudáveis… Mulheres fortes e bem resolvidas. Sim, você poderá encontrar todos esses atributos em uma vítima de relação abusiva.

Começamos com esse ponto porque a quebra do estereótipo é a premissa dessa conversa. Precisamos dissociar a violência doméstica de cenários e ações quase pejorativas.

1. Excesso de “amor”

Pode parecer paradoxal, mas é algo comum nos relatos de relacionamentos abusivos. O abusador tem um certo padrão de comportamento. E, nesse padrão, a capacidade de sedução aparece em destaque.

O abusador pode ser um sujeito extremamente romântico, gentil, vorazmente apaixonado. Ele é capaz de erguer um impressionante pedestal e colocar sua escolhida no topo, alimentando a autoestima feminina de modo singular.

Manifestações exageradas, “provas de amor” e grandes declarações são lindas, todos sabemos disso! Mas saiba enxergar quando elas são espontâneas e quando estão ali para desviar nossa atenção.

2. Ele quer que você mude

Outra característica de um relacionamento abusivo é a imposição, sutil ou não, de mudanças no comportamento.

Não estamos falando de críticas construtivas, que emergem em diálogos francos. É claro que a pessoa que vive com você pode lhe sugerir novos hábitos, lhe instigar a explorar novos gostos. Isso é aprendizado, crescimento, evolução!

Diante de uma proposta de mudança, pergunte-se, sempre, o que ela/ele faria por você. O quanto ela/ele reflete seus valores, suas buscas, sua identidade. Não se encaixa no ideal do outro a qualquer custo. Se você precisa mudar tanto, a ponto de se anular, é porque você não é a pessoa que seu parceiro procura. Nem ele é a pessoa que você poderá chamar de parceiro.

3. O relacionamento abusivo é uma teia

Essa é uma das metáforas mais recorrentes em relatos de relacionamentos abusivos. É interessante pensarmos sobre ela, pois, de fato, a compreensão da teia nos aproxima da experiência de quem se vê enredada por laços quase invisíveis, mas que paralisam.

Tudo isso para assumirmos que, sim, teias são difíceis de serem detectadas. Perdoe-se, se cair na armadilha e lembre-se de que você é humano. E, se cair, peça ajuda para se levantar.

4. Superproteção pode ser sinal de relacionamento abusivo

Essa é uma das linhas da teia. A superproteção pode parecer um cuidado bonito, generoso. No início soará como um zelo, que reflete carinho e preocupação.

É com o tempo que a superproteção mostra seu lado nefasto. A atitude solícita se transforma numa arma de chantagem ou depreciação. De repente, o préstimo é usado pelo abusador como prova da incapacidade da vítima, demonstração de sua inépcia em realizar tarefas simples ou saber desviar de perigos.

É importante manter independência financeira, não abandonar preferências e amizades por juízo alheio. Quem cuida, respeita. E quem ama, admira.

5. Agressão verbal e violência psicológica

O relacionamento abusivo é uma gangorra. Ora o agressor é gentil, encantador, um apaixonado. Essa face positiva é que torna o jogo emocional complexo. Afinal, quando a humilhação parte daquele que tanto ama, ela ganha ares de razão.

As agressões e violência moral de um relacionamento abusivo podem surgir em forma de xingamentos. Mas nem sempre elas são tão claras. Comentários sutis são ainda mais poderosos, porque minam as defesas e perturbam a interpretação objetiva.

Portanto, fique alerta se notar que o parceiro:
. faz pouco caso de suas conquistas;
. ridiculariza suas opiniões e gostos;
. afirma que apenas ele pode lhe amar e aceitar, do jeito que é;
. pede que você se afaste de amigos ou familiares;
. faz você se sentir culpada pelas reações agressivas dele;
. grita ou desconta a raiva em objetos;
. alega que teve uma atitude desequilibrada porque estava estressado ou bêbado;
. manifesta ciúmes com muita frequência e por bobagens;
. vigia seus hábitos, conversas e redes sociais;
. controla sua vida financeira;
. proíbe que use alguma roupa ou ande com determinada companhia;
. vive pedindo desculpas, dizendo que vai mudar, mas não altera o padrão de comportamento;
. faz você acreditar que é responsável por ele (sua “salvadora”);
. diz que você está “louca” quando o coloca em xeque ou o contraria, fazendo com que você questione a própria sanidade e capacidade de analisar as situações;
. consegue impor suas vontades, inclusive forçando o sexo;
. lhe deixa insegura, com medo, constantemente infeliz e com a autoestima ferida.

6. Ameaças e chantagens

As ameaças no relacionamento abusivo são parte da violência física ou emocional. As insinuações de danos à vítima podem ser de ordem psicológica, apelando para a culpa, vergonha, abandono. Chantagens emocionais são extremamente perigosas e paralisantes. Mas a ameaça pode ser física, chegando ao cúmulo de frases como “se não for minha, não será de mais ninguém”.

Quanto mais frágil a identidade da vítima, mais o relacionamento abusivo conquista território. A violência física pode ser o ápice, a evidência incontestável, mesmo não sendo a única que machuca e traumatiza.

Busque ajuda

Se você se identificou com alguns dos sinais, está na hora de repensar a sua relação. É preciso entender onde o relacionamento começa e onde você começa, ou seja, dê valor a sua saúde psicológica, emocional e física. 

Procure tratamento psicológico para entender melhor o que fazer e como lidar com as circunstâncias. É possível aprender a gerenciar a situação e entender os padrões e gatilhos, além de lidar com os traumas deixados pelo relacionamento tóxico.


Há casos em que a terapia de casal pode ser eficiente para as partes aprenderem a lidar com a situação. Porém, na relação abusiva, é comum que o agressor não queira ceder seu “poder” sobre o outro, e, nesses casos, a solução é manter distância emocional e fisicamente.

Não tenha receio de procurar ajuda. É um ato de coragem.
Sou Joana Santiago – Psicóloga

São nossos afetos que dão o colorido especial à conduta de cada um e às nossas vidas.

Segundo o dicionário, afeto é um “sentimento terno de afeição por algo ou alguém”. Apesar de não ser uma palavra tão comum quanto amor e carinho, por exemplo, você já deve ter ouvido falar sobre afeto por aí, não é mesmo? Apesar de ter esse significado mais genérico, você sabia que afeto é um conceito muito importante para o estudo da psicologia humana? 

Afeto na Psicologia

O afeto é um agente modificador do comportamento. Influencia diretamente na forma como pensamos sobre algo.

Também chamado de dimensão afetiva no estudo da psicologia, o afeto é um conjunto de percepções subjetivas que envolvem, principalmente, sentimentos e emoções e que nos ajudam a entender o mundo, dar significado a ele e à vida e a estabelecer vínculos com outras pessoas. Usando uma metáfora bastante poética, a vida afetiva é o que dá brilho, calor e cor à convivência humana, que seria fria, sem brilho e sem sabor caso não houvesse afeto.

Qualquer coisa com a qual uma pessoa se depara há um afeto envolvido, seja negativo ou positivo. No caso da neutralidade, de algo desconhecido, o afeto passa a ser construído desde o primeiro contato e altera a forma como a pessoa interage com aquilo.

O afeto tem relação com situações passadas, com experiências vividas em relação a pessoas, objetos ou ambientes no passado. Vivências positivas criam afeto, que é demonstrado no presente pelas emoções.

O ódio também é um afeto, tanto quanto amor, e é estabelecido a partir de experiências negativas, explicitado por meio de emoções relacionadas à raiva. Por exemplo, uma viagem agradável por uma cidade nunca vista antes cria uma boa experiência, e passa-se a ter afeto por aquela cidade.

Por isso, valorizar e se aproximar daqueles que lhe fazem bem, independente de como o vínculo foi criado, faz com que uma rede seja formada para te fortalecer nos momentos difíceis. Afinal, a vida é sobre criar afetos, seja com quem for, quando for, buscando relações saudáveis para que você, como ser humano, esteja fortalecido, psicologicamente falando.

Sou Joana Santiago – Psicóloga