Joana Santiago
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Você cobra do outro aquilo que nem você consegue dar?

Psicologia
Em uma relação, é natural criarmos expectativas. Esperamos consideração, respeito, atenção, carinho, escuta e reciprocidade. Mas será que conseguimos oferecer o mesmo?

“Quero que você me escute.”

“Quero que tenha mais paciência comigo.”

“Quero que você demonstre mais carinho.”

“Quero que você esteja presente.”

São desejos legítimos dentro de qualquer relacionamento. O problema começa quando esperamos determinadas atitudes do outro sem perceber que também temos dificuldade em oferecê-las.

Isso não significa que devemos aceitar menos do que precisamos em uma relação ou que toda cobrança seja injusta. Significa apenas que relacionamentos saudáveis também envolvem a capacidade de olhar para a nossa própria participação na dinâmica.

O outro nem sempre consegue oferecer aquilo que esperamos

Em uma relação, é natural criarmos expectativas. Esperamos consideração, respeito, atenção, carinho, escuta e reciprocidade. Mas existe uma pergunta importante que poucas vezes fazemos: “Eu também tenho conseguido oferecer aquilo que estou cobrando?”

A psicologia das relações mostra que a qualidade dos vínculos não depende apenas do que recebemos, mas também da forma como participamos da relação.

Na Teoria da Autodeterminação, por exemplo, a necessidade de relacionamento, sentir-se conectado, cuidado e significativo para outras pessoas, é considerada uma necessidade psicológica básica. Pesquisas nessa perspectiva indicam que a qualidade dos relacionamentos tende a ser maior quando existe suporte mútuo às necessidades das pessoas envolvidas.
Isso ajuda a compreender por que relações baseadas apenas em cobrança podem se tornar desgastantes.

Quando a cobrança vira um ciclo

Imagine uma família em que uma pessoa reclama: “Você nunca me escuta.”, e a outra responde: “E você também nunca me escuta!”

A primeira aumenta a cobrança, a segunda se defende e a conversa, que poderia ser uma tentativa de aproximação, transforma-se em uma disputa para descobrir quem está mais errado. Esse tipo de dinâmica pode criar um ciclo de cobrança, defesa e afastamento.

Quanto mais uma pessoa se sente acusada, maior pode ser sua tendência a se defender. E quanto mais se sente ignorada, mais a outra pessoa pode intensificar a cobrança. Por isso, às vezes, mudar a pergunta pode ser mais produtivo do que aumentar a cobrança.

Em vez de:“Por que você nunca faz isso por mim?”, experimente: “O que está acontecendo entre nós e qual é a minha parte nisso?”

Não se trata de assumir toda a responsabilidade pelo relacionamento. Trata-se de reconhecer que, em uma relação, nossas atitudes também influenciam aquilo que acontece entre nós.

Presença também se constrói nos pequenos momentos

O pesquisador John Gottman utiliza o conceito de “bids” – pequenas tentativas de conexão que acontecem no cotidiano. Pode ser uma pergunta, um comentário, uma história contada no fim do dia ou até um simples “olha isso”. A resposta que damos a essas pequenas tentativas pode favorecer aproximação ou afastamento. A pesquisa de Gottman sobre casais identificou diferenças importantes na frequência com que parceiros respondiam positivamente a essas tentativas de conexão.

Isso mostra algo importante: vínculos não são construídos apenas em grandes conversas. Eles também são construídos quando alguém fala e encontramos alguns segundos para ouvir. Quando alguém demonstra uma necessidade e tentamos compreender. Quando percebemos que o outro está diferente e perguntamos o que aconteceu. Quando escolhemos reparar uma situação em vez de simplesmente acumular ressentimento.

Mas reciprocidade não significa fazer tudo igual

É importante fazer uma distinção.
Refletir sobre aquilo que oferecemos não significa justificar comportamentos desrespeitosos ou aceitar relações em que somente uma pessoa se esforça.
Relacionamentos saudáveis também precisam de limites e a responsabilidade pela própria participação não significa assumir a responsabilidade pelas escolhas do outro. Você pode melhorar sua comunicação e, ainda assim, o outro não mudar, pode oferecer escuta e não ser escutado, pode demonstrar afeto e não receber a mesma forma de demonstração. Por isso, a reflexão não deve ser: “O que preciso fazer para o outro finalmente me tratar como quero?” mas: “Estou sendo coerente com aquilo que valorizo nas minhas relações?”

E, a partir daí, também: “O que eu preciso pedir, negociar ou estabelecer como limite?”

Limites fazem parte de relacionamentos saudáveis porque ajudam a estabelecer expectativas realistas sobre aquilo que cada pessoa pode oferecer dentro de uma relação. A própria psicologia define limites como demarcações que ajudam a proteger a integridade e estabelecer limites realistas na participação em relações e atividades.

Antes de cobrar, vale olhar para si

Talvez você queira mais diálogo, mas frequentemente encerre as conversas quando elas ficam difíceis.
Talvez queira mais atenção, mas esteja sempre olhando para o celular quando alguém tenta conversar.
Talvez queira que o outro reconheça seus sentimentos, mas tenha dificuldade de validar os sentimentos dele.
Talvez queira mais paciência, mas responda de forma agressiva quando está frustrado.
Nenhum desses exemplos significa que você não tenha direito às suas necessidades, eles apenas mostram que necessidade e responsabilidade podem existir ao mesmo tempo.
Você pode precisar de mais carinho e também aprender a demonstrá-lo, pode querer ser ouvido e também desenvolver sua capacidade de ouvir e pode desejar respeito e, ao mesmo tempo, perceber quando suas próprias palavras ultrapassam limites.

O relacionamento que queremos também precisa aparecer na forma como nos relacionamos

Não precisamos ser perfeitos para construir vínculos saudáveis.

Todos nós falhamos, nos irritamos, perdemos a paciência e, algumas vezes, agimos de maneiras que não correspondem à pessoa que gostaríamos de ser, a questão está na possibilidade de perceber, reparar e tentar novamente.

A psicoterapia pode ajudar justamente nesse processo de compreender padrões de pensamento, emoções, comportamentos e dificuldades de interação, inclusive em problemas relacionados à família e aos relacionamentos. Por isso, antes da próxima cobrança, talvez valha fazer uma pausa e perguntar: “Aquilo que estou esperando do outro também está presente na forma como eu me relaciono?”

Talvez essa pergunta não resolva tudo, mas pode abrir espaço para uma conversa diferente.
E, muitas vezes, uma mudança na forma de conversar já é o começo de uma mudança na forma de se relacionar.

Sou Joana Santiago Psicóloga

14 de agosto de 2026/0 Comentários/por Joana Santiago
Tags: comunicação, convivência familiar, diálogo, escuta, família, limites, reciprocidade, relacionamento, relacionamentos saudáveis, responsabilidade emocional, saúde emocional, vínculo familiar
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